leandro“Leandro Gomes de Barros – O mestre da literatura de cordel – Vida e obra”, de autoria do poeta e pesquisador cearense Arievaldo Viana, é uma daquelas obras que conseguem dar uma segunda vida ao biografado. Digo isso porque o autor, mesmo diante das inúmeras dificuldades para coligir os dados para a pesquisa, conseguiu “remontar” a trajetória de vida daquele que é reconhecido como o precursor do mais popular de todos os gêneros literários. Vianna fez com o poeta Leandro Gomes de Barros algo semelhante ao que fizera Michelangelo Buonarrotti quando fez surgir, do mármore bruto, obras de arte que glorificariam o gênero humano por toda a eternidade.

O autor apresenta um Leandro que poucos conheciam. Ao contrário do que se pensava, o poeta, nascido em 19 de novembro de 1865, na fazenda Melancia, em Pombal, na Paraíba, teve contato com a obra de grandes autores nacionais e estrangeiros. É o que diz Câmara Cascudo, um dos maiores estudiosos do folclore brasileiro. Um deles teria sido o espanhol Enrique Pérez Escrich, autor do famoso romance “O Mártyr do Gólgota”. O Mártir… teria inspirado Leandro a compor “Os Martyrios de Christo”. Devo acrescentar que esse livro de Escrich, citado na obra de Vianna, era um dos preferidos do meu pai, que o havia lido lá pelos anos 40 e do qual me falava sempre em grau superlativo pelo inusitado do conteúdo bíblico nele contido. Para reforçar o que disse o grande folclorista, Vianna relembra que o genro de Leandro, o escritor Pedro Batista (“Cangaceiros do Nordeste”, Paraíba, 1929), casado com Rachel Aleixo de Barros Lima, era proprietário de livraria na cidade de Guarabira (Agreste paraibano). Como costumava frequentar o estabelecimento, tudo converge para que Leandro tivesse tido mesmo acesso a obras de grandes autores nacionais e estrangeiros.
O trabalho de Arievaldo Vianna revela ainda um cordelista que, ao menos nos seus folhetos, se mostrava sempre bem humorado. Era sarcástico ao extremo. Do seu sarcasmo nem a própria família escapava. Mas tudo dentro de uma linha de comportamento que apenas servia para mostrar aos mais íntimos o quanto era próximo da família. Vianna, porém, revela um Leandro em conflito com a sogra, mãe de dona Venustiniana Eulália de Souza Barros, a quem costumava chamar carinhosamente de Venus. Isso fica claro no folheto “Testamento de uma sogra”, em que Leandro confessa toda a sua aversão àquela “Que era morta há dez anos/E Deus a tenha por lá/Pregada em cepo de ferro/Que ela não volte mais cá/Ainda virada em ouro/Deus a deixe onde está”. O biógrafo encontrou indícios de que dona Venus lia os versos que o marido escrevia, e, claro, não teria gostado nada daqueles em que o poeta se referia à própria sogra.
Mas Leandro também enfrentou problemas com algo tão comum nos dias de hoje: a pirataria. Não foram poucos aqueles que assumiram a autoria de obras que, sabidamente, eram de outro autor. Um desses “piratas” teria sido João Martins de Atahyde. Esse poeta era um admirador do trabalho de Leandro, mas saiu da linha ao assumir a autoria de obras que não lhe pertenciam. Athayde teria até mesmo alterado alguns acrósticos com o claro objetivo de apagar vestígios da autoria de Leandro Gomes de Barros. Conta Vianna que Athayde comprara, da viúva dona Venus, todos os direitos sobre a obra do poeta pombalense, após um desentendimento com o genro Pedro Batista logo após a morte da esposa Rachel. Isso, logicamente, teria facilitado o trabalho de pirateagem dos escritos de Leandro Gomes de Barros.
A obra de Arievaldo Viana põe o leitor em contato íntimo com um poeta que, conforme Carlos Drummond de Andrade, foi maior que Olavo Bilac. O vate mineiro chegou mesmo a defender que o título de “Príncipe dos poetas”, ostentado por Bilac, deveria era ser, por merecimento, dado a Leandro Gomes de Barros.
O poeta paraibano contava 58 anos e residia no Recife quando um aneurisma cerebral ceifou-lhe a vida. Era o dia 4 de março de 1918. Leandro Gomes de Barros levava consigo a gênese de um gênero poético que dominaria a preferência popular pelas décadas seguintes.

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